Por Direito de Ouvir

25 de julho de 2022

Você não está sozinho(a)!

Não sinta vergonha dos aparelhos auditivos e não deixe de cuidar da sua audição

25 de julho de 2022


Precisou de um tempo para entender a realidade. Certas mudanças não são temporárias e, aceitá-las, torna-se um processo lento e até um tanto assustador. É natural paralisar diante do novo, ainda mais estando cercada de tabus, crenças e silêncios - quase ninguém falava sobre, quase ninguém se expunha, quase ninguém narrava sua história para poder entender, explicar… acolher.

Nadei na quietude por meses a fio; o que é uma ironia, haja visto que o mundo tinha se expandido aos meus ouvidos. Eu recém havia colocado meus aparelhos auditivos, recém tinha descoberto sons que não ouvia e recém tinha mergulhado no pior dos silêncios: o silêncio do medo, o silêncio da vergonha, o silêncio do preconceito de uma deficiência invisível e quase incompreendida.

Levou outro tempo para aceitar dar voz à minha condição e escancarar para o mundo. De forma ainda um tanto tímida, fui contando sobre a nova rotina com os aparelhos auditivos, contando minhas descobertas e, aos poucos, as pessoas começaram a chegar; ainda que embaixo dos panos sussurrando meia dúzia de confissões e mostrando que eu não estava sozinha.

 A verdade é que tem muito mais gente como eu do que você imagina. Milhares de pessoas com algum grau de perda auditiva, escondendo entre os cabelos os aparelhos que lhe facilitam o mundo. Ao expor minha história, esbarrei em diversas outras e pude perceber que naturalizar a condição deixa a aceitação quase indolor.

Contar minha história me possibilitou ouvir outras tantas, que, secretamente, me inspiraram também. Saber que minha história ajuda outras pessoas a aceitarem a sua perda auditiva, me fez aceitar a minha também. Consequentemente, ficou fácil falar sobre todo meu encantamento com o uso de aparelhos porque parte minha queria que todas as pessoas com deficiência auditiva pudessem experimentar as mesmas sensações e melhorias que eu tive, ouvindo melhor, estando mais inserida na sociedade e menos insegura.

Não fazia ideia da dimensão que as coisas poderiam tomar e do quão maior e expressivo é o número de pessoas que são como eu, deficientes auditivas em algum grau, usando aparelhos em seus ouvidos para ter uma qualidade de vida decente. De adultos a pessoas mais velhas, fui ouvindo histórias que me inspiraram, fui acolhendo as pessoas como um dia quis ser acolhida e fui me emocionando ao perceber que, de alguma forma, as encorajava a não sentir vergonha.

Mas foram as crianças que mais me transformaram e que ainda me encorajam a assumir esse lugar de fala.

Meninas com seis, sete, oito anos; vivendo a bagunça da vida estudantil com seus muitos desafios, cheias de autocríticas e vergonhas; imersas em crenças de se sentirem menores e inferiores por serem como são. É doloroso e cruel colocar o peso do preconceito no colo dessas meninas que, apesar de qualquer contexto, são só meninas, como todas as outras, com sonhos, amores, expectativas bonitas e infantis.

Foi assistindo seus olhinhos brilhando, vendo colocarem seus cabelos para trás e expondo seus aparelhos bonitos e rosas, percebendo que elas se enxergam em mim; que coloquei todas as minhas inseguranças embaixo da cama e ergui o queixo e meu tom de voz para me fazer ouvir e mostrar que as diferenças não são nada perto da tecnologia que temos e do tanto que somos.

Em tempo: a perda auditiva é tão comum quanto a perda visual. Estamos acostumados com milhões de pessoas ao nosso redor usando óculos ou lentes de contato; mas apontamos o dedo para o aparelho auditivo que, nada mais é, que um meio para um fim, tal qual os óculos. Não sinta vergonha nem deixe de cuidar da sua audição por isso. Você não está sozinho(a) nessa ♥

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Mafê Probst, escritora e PcD.


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