Por Direito de Ouvir

28 de maio de 2021

Superando a vergonha de não ouvir.

O impacto social da perda auditiva causa constrangimento.

28 de maio de 2021



No contexto da perda auditiva, ninguém nunca está de fato pronto para o diagnóstico. Tem-se uma falsa ideia de que perdas auditivas e surdez são decorrentes apenas de pessoas que já NASCEM nessas condição ou que adquiriram a surdez pela idade, transformando-se na famosa “Velha da Praça”. Apesar de muito mais desmistificado do que outros tempos, ainda é comum depararmos com a associação equivocada da surdez à pessoas mais velhas. Um fato: a perda auditiva não tem idade.

O impacto social da perda auditiva é extenso. Pelo preconceito velado e crenças distorcidas, a procura adequada pelo profissional responsável por auxiliar na perda auditiva – fonoaudiólogos e/ou otorrinolaringologistas – é tardia. E tão pouco se fala sobre o impacto que a surdez causa, que se faz pouco caso. Acostuma-se a ouvir mal – e não devia. Acostuma-se a precisar aumentar o volume da televisão, acostuma-se a pedir para repetir ou, ainda pior, acostuma-se a FINGIR que ouviu.

Isso vai causando uma vergonha tão latente para quem tem a perda auditiva, que pode desencadear uma vida reclusa, deprimida e quase solitária. É mais fácil evitar as pessoas do que assumir a surdez, percebe? É uma atitude tão insana, se formos pensar racionalmente, porque o mercado está cheio de tecnologias de ponta, com aparelhos auditivos diversificados, para tornar a vida do não-ouvinte mais confortável, acessível e, se me permite dizer, extremamente normal.

Sim, sou surda.

Ou parcialmente surda, ainda não me acostumei com o termo. Tenho perda auditiva em ambos os ouvidos e descobri, há pouco menos de três anos, que o negócio era sério. Assim como várias pessoas que escuto histórias, eu também tive uma vontade extrema de sumir e não assumir que precisava do uso de aparelhos auditivos, afinal, eu tinha só trinta anos e isso era coisa de gente velha, não era?

Eu já experimentava na pele o impacto que a perda auditiva causava: era considerada antipática; evitava certos compromissos sociais e morria de vergonha de falar em público – não pelo público em si, mas pelo constrangimento que seria alguém fazer uma pergunta e eu não entendê-la.

Entrei nessa redoma de ficar na minha própria companhia, curtindo filmes e músicas em sons excessivamente altos para os ouvidos “normais” e me isolando de toda situação que colocasse a minha deficiência em evidência. Foi a muito contragosto que voltei ao Otorrino e recebi o diagnóstico de “DEFICIENTE AUDITIVA”.

A vergonha do não-ouvir cedeu espaço para a vergonha de ser deficiente e precisar de aparelhos auditivos. Mas toda vergonha caiu por terra quando pus o aparelho, ajustei e saí para um mundo que era totalmente novo para minha audição.

Recuperei minha confiança, ganhei de volta minha autoestima e o impacto social reduziu-se a zero...

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Mafê Probst, escritora e PcD.

Curiosa e criativa, descobriu o mundo quando passou a ouvi-lo melhor.


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