Por Direito de Ouvir

02 de setembro de 2021

Não é só “não ouvir”.

Não ouvir me deu bloqueios e depois do uso dos aparelhos auditivos consegui perceber!

02 de setembro de 2021


Na primeira consulta, com os olhos debaixo d’água, ouvi a fonoaudióloga me explicar sobre o porquê da necessidade dos aparelhos auditivos. Com o gráfico na mão e uma paciência sem tamanhos, ela pontuava todas as minhas perdas e o que isso implicava no meu cotidiano. Estava ali: eu até podia ouvir, dependendo do grave e do volume, mas eu pouco entendia.

Depois do choque, do teste e da adaptação ao aparelho auditivo, fui percebendo o novo mundo que se expandiu a minha volta. E percebendo esse novo mundo, pude pontuar uma série de mudanças que vão muito além do ouvir melhor e que me ajudaram a moldar quem sou e quebrar algumas crenças que eu tinha.

Eu era extremamente tímida. Calada, observadora, quieta. Tinha pânico de plateia e fugia, de todas as formas possíveis, de apresentações públicas. Falar na frente de muitas pessoas era uma tortura para mim e eu tinha mil medos, inseguranças e bloqueios porque temia passar vergonha. Julgava que era decorrente da timidez e só, mas, depois dos aparelhos e da melhora significativa na audição, percebi que a vergonha estava atrelada ao fato do não-ouvir. Ao medo de não entender se questionassem alguma coisa. Ao pavor de responder algo completamente diferente do que estava sendo dito.

Passei perrengues demais nos meus anos de má-ouvinte. Era taxada de antipática – quando me chamavam e eu não atendia –, de distraída – quando falavam comigo e demorava a perceber –, e de doida, em todas as vezes que eu respondi algo completamente diferente do que me foi perguntado – ou ri em horas erradas.

Por essas, fui me colocando numa concha segura e silenciosa, porque era mais fácil evitar as pessoas e as situações. Eu me rotulava extremamente introvertida porque não fazia ideia que meu problema não era a timidez: era a má audição.

Depois que coloquei os aparelhos e percebi tudo em minha volta, todo som passou a ficar mais claro e meu cérebro parou de ter alguns bloqueios por medo de não entender. Com o tempo e a adaptação, meus pânicos foram perdendo força e, gradativamente, eu me aventurava mais.

Perdi boa parte da vergonha.

Não era só “não ouvir”, sabe? 

A má-audição me impediu de socializar & viver com plenitude. As inseguranças eram tantas, a vergonha era tamanha que parecia natural querer me esconder. Parecia até cômodo, seguro, confortável.

Mas não era.

Assustava, travava, me anulava.

Ter a audição de volta me trouxe coragem de viver bem. Devolveu minha confiança e segurança. E mesmo nos dias que bate um pouco de desconforto de abordar o assunto com pessoas desconhecidas, hoje também tenho coragem de assumir: “Esqueci meus aparelhos auditivos, não te entendi. Você pode repetir?”.

Os aparelhos auditivos me deram coragem de enfrentar o público, me deram ousadia de arriscar algo novo, em lugares novos e com pessoas estranhas. Eu saí da bolha que tinha me colocado e fiquei extremamente mais sociável, mais atenta, participativa – e feliz.



Mafê Probst, escritora e PcD.

 

Curiosa e criativa, descobriu o mundo quando passou a ouvi-lo melhor.

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Leia também no blog da Mafê: Colocar e adaptar Aparelho Auditivo é um processolongo, cansativo, tal qual a vida. MAS VALE A PENA! 


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