Por Direito de Ouvir

07 de outubro de 2021

A vida é dividida em dois momentos:

Antes e depois dos aparelhos auditivos.

07 de outubro de 2021



Os rótulos eram muitos.

De distraída a antipática, eu passei por diversas situações que me fizeram questionar minha própria consideração pelas pessoas ao meu redor, pensando se eu era mesmo tão desatenta quanto me diziam ser, até descobrir, trinta e tantos anos depois, que toda a minha falta de atenção blasé, era, na verdade, uma audição bem comprometida e uma perda auditiva moderada – nos dois ouvidos.

Foi por insistência de pessoas próximas que fui verificar minha audição e não teve outra alternativa, salvo usar aparelhos auditivos. Eu passei a dividir a vida em dois momentos: aquele de quem eu era antes dos aparelhos; e aquele de quem passei a ser depois deles. Ouvir é mágico, necessário e acolhedor.

Depois da fase de adaptação ao novo, é perceptível o tanto que tudo muda – e aqui não me refiro ao simples fato da inclusão em conversas e atenção aos sons, mas a mudança interna mesmo, pois a gente muda e muito! Ter o direito de ouvir bem, nos dá confiança – e coragem.

Eu fui uma menina extremamente tímida, escondida atrás de livros e fugitiva de eventos sociais.

Descobri, anos mais tarde, que a minha timidez vinha do não-entender as pessoas; então eu preferia evitar a fadiga dos “quê?”, “hã?”, “não entendi”, “pode repetir, por favor?”, sem esquecer do auge da vergonha que era sorrir amarelo quando alguém falava e eu não entendia praticamente nada. Não dá para contar nos dedos, tantas vezes que me vi em situações de extremo desconforto ao seguir uma conversa sem entender absolutamente nada dela, ou rir de algo que não era engraçado e, quando pior, responder algo completamente fora do contexto.

Voltar a ouvir melhor me tirou um pouco a timidez.

Todo o receio que eu tinha de não entender, foi sumindo aos poucos. A antipatia deixou de existir, pois as pessoas me chamavam e eu, finalmente, as ouvia. As conversas foram ficando menos embaraçosas e até as pessoas próximas se aproximaram ainda mais. Não havia mais pânico, sabe?

A conversa fluía numa via de mão dupla, não mais tanto o monólogo com uma pessoa que eu fingia entender e da qual eu não arriscava prolongar o papo pra evitar mesmo qualquer assunto – e qualquer constrangimento.

Experimentei, depois de muito adulta, a coragem de pedir informação na rua, para quem quer que fosse. Antes dos aparelhos, perguntar qualquer coisa era quase o mesmo que não perguntar nada. Se a pessoa questionada não tivesse um bom tom de voz, ou falasse no timbre errado, era mais que certo: eu assentia, agradecia e seguia sem ter entendido uma só palavra.

Foi bonito o dia que parei, perdida, num posto de gasolina e questionei o moço sobre qual direção seguir. Ele respondeu e eu, finalmente, entendi. Era o fim de seguir instruções erradas por fazer o que tinha achado ouvir.

Usar aparelhos auditivos nos dá a confiança de conseguir entender tudo que está a nossa volta, trazendo o conforto de viver sem vergonha e sem receio.

Mafê Probst, escritora e PcD.

Curiosa e criativa, descobriu o mundo quando passou a ouvi-lo melhor. ___

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